Pular para o conteúdo principal

a bruxa e o espantalho (Que belezura!)

Costumo dizer que investir em um livro de imagem é uma excelente ideia, porque esse tipo de livro é infinito. Principalmente se o leitor for uma criança, porque a cada vez que a história for lida pela criança ou contada pra ela, a história será recebida por uma perspectiva diferente. Mais ou menos como quando relemos um livro e, após cada releitura, fazemos uma interpretação diferente dele.

A bruxa e o espantalho é um livro de imagem, com capa dura, relativamente barato, traz as espetaculares ilustrações do artista mexicano Gabriel Pacheco e que foi publicado no Brasil pela Editora Jujuba

As ilustrações de Gabriel Pacheco narram a história de uma bruxa que voava em “bando” com outras bruxas (Assim como as aves!) utilizando seu monociclo, enquanto as outras bruxas utilizavam suas vassouras. Mas em algum momento da viagem, essa bruxa diferentona se distrai com um passarinho, cai do seu meio de transporte diferentão e, além de ser duramente criticada, é excluída do bando pelas outras bruxas (Muito carrancudas.), que vão embora e a deixam na floresta sozinha.
E mesmo quando cai do seu monociclo, ela parece estar leve... Mas essa leveza precisa ser percebida, porque não pode ser vista “a olho nu”! Falando de forma um pouco mais, digamos, filosófica, ela cai porque se distrai com o belo, o passarinho, nesse caso.

Ainda na cena da exclusão, os sinais da presença do espantalho, o outro personagem principal, já começam a aparecer, mesmo que ele não esteja no cenário.  Essa presença do espantalho, ainda que muito discreta, permanece nos acontecimentos seguintes. Inclusive quando ela perambula pela floresta, vivenciando o abandono que, aparentemente, ela sente quando olha pro céu e vê suas “amigas” indo embora. Mas mesmo de longe, o espantalho percebe o abandono acontecendo. As cenas nas quais ele aparece, fisicamente, são mais vivas, digamos assim. E em uma delas é possível, mesmo que subliminarmente, notar como o abandono é visto por outro indivíduo...

Outra “coisa” que percebi, principalmente quando a bruxa encontra com o espantalho, é que mesmo em situação de abandono, exclusão e solidão, ela não perde sua capacidade de olhar pro belo, não se entrega ao ruim. O belo a impacta de forma emocionante! Além disto, por onde ela passa, o cenário vai sendo iluminado. A cena na qual os dois personagens se encontram é linda e vivamente colorida, e a forma como o espantalho olha pra bruxa, me lembrou o olhar curioso de um gatinho, de tão doce e fofo...
E ainda que sentisse todo peso do mundo em seu coração, a bruxa diferentona me pareceu trazer mais alegria ao espantalho. O semblante dele muda muito quando ele a vê! O “sorriso” dele é muito bonitinho, e a delicadeza das minúsculas folhas coloridas, espalhadas pela página, são de uma meiguice inexplicável!

Outro tema abordado, e que me tocou muito, foi a transformação que a decisão de ajudar traz. A cena do início da transformação do espantalho é impactante demais! Aquele pequeno e calmo redemoinho de palhas é impressionante e delicado! As cenas seguintes, ainda com a revoada de palha, são tão maravilhosas que quando fechei os olhos, quase pude sentir uma brisa passando por mim... É como aquelas cenas de filmes nas quais o cenário muda com um vento calmo e que anuncia algo bom, sabe?!

(Repare na folhinha... Por favor, repare na folhinha...)

As páginas seguintes às cenas que acabei de descrever além de serem lindas, narram o desfecho da história dessa bruxa que, mesmo vivendo uma situação difícil, não desistiu de enxergar a beleza das coisas; e conta também o que acontece com esse espantalho que sabe sobre a importância de se transformar pra transformar o mundo, e como podemos nos fazer presentes nas vidas das pessoas... De maneiras subjetivas, simples... Ou não...
Com suas ilustrações ternas, delicadas e (quase) subjetivas Gabriel Pacheco oferece ao leitor desse livro, uma história sobre empatia, respeito às diferenças, a importância de enxergar “além do que se vê”, generosidade, transformação, pertencimento...

A impressão que tive no final do livro foi de que o espantalho vai caindo, propositalmente, para colorir o mundo por onde a bruxa passa com ele! Ah, gente! É lindo demais! O desfecho é incrível! O espantalho, o passarinho e a bruxa dessa história, representam inúmeras virtudes que não encontramos nos corações de muitos personagens da vida real (adulto ou criança). Um livro realmente necessário para todos os nossos dias! Leia! Releia! Seu coração vai agradecer!

Obrigada, T., pelo mimo!

Ficha técnica
Título original: La bruja y el espantapajaros
Título brasileiro: A bruxa e o espantalho
Tradução: Daniela Padilha


Com carinho, Cotovia Literária!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Proibido aos elefantes (Elefantinhos do mundo, uni-vos!)

Ensinar sobre inclusão às crianças não deve ser tarefa fácil mas, ainda mais difícil, penso eu, seja ensinar aos adultos já incutidos de preconceitos (e pré-conceitos) a lidar respeitosamente com o que é diferente pra eles. Para amenizar essas dificuldades, os livros (Sempre os livros!) são ferramentas incríveis e imprescindíveis!   Como já disse aqui outras vezes , gosto sempre de destacar a transparência e a coragem com que algumas editoras trabalham. Neste texto falarei de um livro infantil, publicado pela (super competente) Trioleca Casa Editorial .   O livro Proibido aos elefantes , assim como outras publicações da Trioleca , é uma ferramenta sensível, acolhedora e de fácil utilização para abordar temas como inclusão, amizade, medo, diferença, exclusão, solidariedade e solidão (Ficou uma listinha meio grande, mas é necessário. Eu não poderia deixar algum item desses de fora.).   Nessa história linda, escrita por Lisa Mantchev , o protagonista sente certa dificuldade em

A sociedade literária e a torta de casca de batata (Entre porcos e livros!)

  Eu jamais iria ridicularizar alguém que gostasse de ler. (Juliet para Amelia)   A sociedade literária e a torta de casca de batata é um desses livros do qual, não quero me separar. Quero andar com ele pra cima e pra baixo, não importando se ainda há páginas para serem lidas ou não.   As autoras Mary Ann Shaffer e Annie Barrows contam a história de Juliet Ashton, uma escritora inglesa que está em turnê de divulgação do seu último livro, logo após a Segunda Guerra Mundial, e que está em crise existencial (Dito assim parece clichê, mas é muito mais profundo do que consigo transcrever aqui no texto.).   O livro traz um compilado de cartas trocadas entre a escritora inglesa e alguns personagens da trama, principalmente Dawsey Adams, Sidney e Sophie. Dawsey é um fazendeiro na Ilha de Guernsey que, durante a ocupação alemã, adquiriu um livro que foi de Juliet e que na contracapa trazia o endereço antigo dela. Dawsey enviou uma carta pro tal endereço pedindo recomendação de alg

Três é demais (Será?!)

Conheci o João Marcos , autor do novo livro da Abacatte Editorial, Três é demais , no FIQ de 2018 (Festival Internacional de Quadrinhos). Ele estava autografando seus livros com o Mendê e a Tê e também desenhando outros personagens muito maravilhosos no flip chart . Fiquei encantada por saber que aqueles traços tão fortes saíram das mãos de alguém tão gentil como o João!   Com o prefácio lindamente escrito pelos irmãos Lu Cafaggi e Vitor Cafaggi , o talentoso quadrinista João Marcos lança o muito divertido Três é demais - que com certeza fará muito sucesso nas bibliotecas particulares e, também, abalará as estruturas das bibliotecas escolares: história em quadrinhos, caixa alta, poucas páginas, formato gráfico excelente e miolo impresso em papel resistente.   *   Usando e abusando da criatividade dos personagens Mendelévio e Telúria, para abordar temas do cotidiano infantil, causando grande confusão na vida dos dois irmãos, o quadrinista me divertiu com seu texto e sua i